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Dom Murilo Krieger: “Quaresma: tempo de amor”

Dom Murilo Krieger: “Quaresma: tempo de amor”

“A imposição das cinzas é um convite a que reflitamos especialmente sobre a nossa liberdade interior, num mundo e numa época em que ela é diariamente ameaçada”

Dom Murilo S. R. Krieger, scj

Dom Murilo S. R. Krieger, scj, Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Professores universitários e adolescentes, pescadores e executivos, vendedores ambulantes e desempregados que foram a uma igreja católica na quarta-feira de Cinzas ouviram um destes apelos: “Convertei-vos e crede no Evangelho!” ou “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar!” Quantos meditaram, depois, sobre o que ouviram, é outra questão. Sentimos em nós um desejo tão grande de viver que procuramos abafar todo e qualquer pensamento ligado à ideia de sofrimento, renúncia ou morte.

Se refletirmos bem, chegaremos à conclusão de que a afirmação sobre o “pó (“ao pó hás de voltar!”), longe de nos fazer perder o gosto pela vida, nos dá, sim, uma ideia exata e real de seu valor. Somos pó. Essa verdade nos obriga a ficar com os pés bem firmes no chão. Ajuda-nos, também, a observar o mundo, as outras pessoas e os acontecimentos com um olhar realista – melhor: com o olhar da verdade. De nada adianta alguém passar a vida procurando enganar a si mesmo ou ignorando a própria verdade, pois com essa postura não modificará os acontecimentos, nem a verdade perderá sua força.

A cerimônia das Cinzas nos incentiva a ser honestos conosco mesmos, ajuda-nos a enfrentar situações que nem sempre nos agradam e, acima de tudo, a sermos realistas. A imposição das cinzas é um convite a que reflitamos especialmente sobre a nossa liberdade interior, num mundo e numa época em que ela é diariamente ameaçada. Segundo o Evangelho, é livre quem é capaz de amar, quem é disponível, quem sabe servir. A liberdade deve ser constantemente reconquistada e aprofundada, porque não é um dom estável, nem está cercada de garantias ou defendida por armas potentes. Pelo contrário, a liberdade é frágil, muito frágil. Só com o tempo descobrimos que, mesmo assim, ela é mais forte do que reinos, ideologias e riquezas.

Quaresma é tempo de amor | Imagem: iStockphoto

É tempo de Quaresma! Este período, contudo, não é tempo de tristeza ou de angústia. O Evangelho nos lembra que o Filho de Deus “esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo… Humilhou-se e foi obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,7-8). Por sua cruz e obediência, Cristo nos conquistou a salvação.

É necessário, agora, imitarmos nosso Mestre, assumindo a condição de discípulos. Ele quer ser seguido por pessoas livres. Por isso, as penitências que a Igreja nos prescreve nesse tempo, tais como o jejum e a abstinência de carne em certos dias, e as que nosso amor nos levar a fazer, são justamente para que sejamos livres, disponíveis e generosos.

Para alguns, “ser livre” poderá significar uma maior fidelidade a seus deveres na família, no trabalho ou na comunidade. Para outros, a liberdade poderá propiciar uma nova motivação para trabalhar pela justiça, na linha do que o Senhor nos ensina, através do profeta Isaías: “Acaso o jejum que eu prefiro não será isto: soltar as cadeias injustas… deixar livres os oprimidos?” (Is 58,6). Para um terceiro grupo, poderá significar deixar de fumar, de beber e restringir a diversão, tendo em vista os apelos transmitidos pelo profeta Joel: “Agora, retornai a mim todo o vosso coração, com jejum, com lágrimas e com lamentação. Rasgai os vossos corações, e não as vossas roupas, retornai ao Senhor, vosso Deus, porque ele é bondoso e misericordioso, lento na ira e cheio de amor, e se compadece da desgraça” (JI 2,12-13).

A liberdade que conquistarmos com essas práticas não será um fim em si mesma. Quanto mais livres formos, melhores condições teremos de caminhar ao encontro daquele que há muito tempo tomou sua cruz e livremente veio em nossa direção. Por causa dele, repartiremos nosso pão com o faminto, recolheremos em nossa casa os desabrigados e vestiremos os que estiverem nus. Fazendo isso, “qual novo amanhecer, vai brilhar a tua luz, e tuas feridas hão de sarar rapidamente. Teus atos de justiça irão à tua frente e a glória do Senhor te seguirá. E quando invocares, o Senhor te atenderá, e ao clamares, ele responderá: “Aqui estou!” (Is 58,8-9).

Verdadeiramente, Quaresma não é tempo de tristeza. É, antes, tempo de amor.

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